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Acidentes de trânsito aumentam 13% no CE

31/07/2009 - Acidentes de trânsito aumentam 13% no CE

De janeiro a abril deste ano, o número de acidentes de trânsito no Ceará teve um aumento de 13,10%, em relação à igual período do ano passado. Em 2008, foram 6.337 e agora em 2009, 7.167. Os números são do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) e referem-se às ocorrências nas rodovias estaduais e federais, além das ruas e avenidas de Fortaleza. Houve aumento também de 16,30% no número de acidentes com vítimas não fatais, que saiu dos 3.454 casos registrados em 2008, para as 4.017 ocorrências este ano.

Mesmo tendo havido uma redução de 23,13% no número de mortes em relação ao mesmo período, a cada dia do primeiro quadrimestre do ano, duas a três pessoas morreram no Estado vítimas do trânsito. Ao todo, foram 329 óbitos em 2009, sendo 58 em Fortaleza. No ano passado, houve 428 mortes no Ceará, com uma média de quatro óbitos por dia. Desses, 73 na Capital.

A redução no número de óbitos, se avaliada apenas em termos matemáticos, pode até não ser considerada tão significativa. Como, entretanto, refere-se à quantidade de vidas humanas preservadas é vista de maneira positiva por gestores públicos e sociedade. Por isso é que as mortes diárias quer sejam quatro, três ou uma continuam chocando, por refletirem situação de violência extrema.

Situação que, na avaliação do superintendente do Detran, João Pupo, a cada dia se torna mais inadmissível. Isso porque, há leis específicas normatizando a convivência entre condutores, passageiros e pedestres, há punição para os infratores e, ainda assim, a situação crítica permanece. Entretanto, explica ele, são muitas as variáveis envolvidas no enfrentamento da violência no trânsito que, em alguns casos, fogem da competência dos órgãos gestores.

A fiscalização vem sendo feita, campanhas educativas realizadas, mas o aumento anual da frota de veículos em torno de 10%, a falta de políticas públicas mais eficazes para o setor e até mesmo a demora dos municípios cearenses em assumir o gerenciamento do seu trânsito acabam complicando ainda mais o problema. O crescimento da frota, por exemplo, tem provocado um efeito dominó.

São mais carros circulando nas mesmas quantidades de ruas, criando uma situação propícia a ocorrência de acidentes. Ao mesmo tempo, como as cidades não apostam na municipalização do trânsito, as infrações são cometidas mais livremente. Embora há mais de 11 anos o Código de Trânsito Brasileiro tenha determinado a municipalização do trânsito, até agora, apenas 46 dos 184 municípios cearenses assumiram a pasta.

MAIS INFRAÇÕES

Lei Seca intensificou fiscalização

Há pouco mais de um ano em vigor - dia 19 de junho, completou um ano de aprovação - a Lei 11.705, apelidada de “Lei Seca”, tem modificado a rotina não apenas da população, mas o fazer diário e estatísticas dos órgãos de trânsito. No Ceará, garante João Pupo, superintendente do Detran, a determinação tem ajudado para que os índices de violência no trânsito não fiquem ainda piores do que estão.

Para começar, houve um aumento da fiscalização e, consequentemente, na quantidade de veículos apreendidos e autos de infração lavrados. Do ano passado até agora, 9.209 motoristas foram flagrados pelo Detran dirigindo alcoolizados. Nesse sentido, conforme descreve Pupo, embora todas as semanas motoristas sejam flagrados nessa situação, não se pode negar o fato de que parte da população modificou seus hábitos.

“Nas blitze, a gente encontra muito mais mulheres e idosos dirigindo. O que não acontecia antigamente”, diz.

Por isso mesmo é que Pupo acredita não ter havido relaxamento da população em relação à lei. O que acontece, acredita ele, é que apesar de continuarem atentas, muitas pessoas não abrem mão do hábito de beber e acabam apostando na sorte de não ser pega em flagrante. Prova disso é que, afirma ele, flagrados, mostram-se cientes do erro e não reagem agressivamente.

Mais infrações

A não ser pela “Lei Seca”, não há muitas alterações nas estatísticas das principais infrações dos condutores registradas pelo Detran. A maior parte dos casos é de veículos não licenciados e condutores não habilitados.

No primeiro caso, nos primeiros quatro meses do ano passado, 4.808 pessoas foram flagradas e 4.959 agora em 2009. Já pessoas dirigindo sem habilitação foram 3.554 em 2008 e 4.681 entre janeiro e abril deste ano.

Em relação à falta de habilitação, Pupo diz que a maioria das ocorrências é no Interior do Estado, embora ainda existam flagrantes desse tipo em Fortaleza. Ele acredita que na maior parte dos casos o problema se deve às condições financeiras e pouco nível de escolaridade.

Para minimizar a situação, o governo do Estado está com o programa da Carteira de Habilitação Popular, que custeia os trâmites - aulas e taxas - para a emissão da primeira CNH para pessoas de baixo poder aquisitivo, portadores de necessidades especiais, alunos das escolas públicas e egressos do sistema penitenciário.

Ontem mesmo, começou a segunda etapa de exames do programa em Juazeiro do Norte, município com o maior número de inscritos para retirar a carteira de moto. São 2.111 pessoas que passarão por exames até o próximo dia 3.

DESRESPEITO

População tem dificuldade em obedecer a regras

Por que o motorista avança a preferencial? Qual a razão das ultrapassagens e de pegar a direção de um veículo mesmo estando alcoolizado? As perguntas podem ser infinitas e direcionadas não apenas aos condutores de veículos, mas aos pedestres, motociclistas, passageiros, cada um dentro das especificidades do papel que representam no trânsito.

As respostas serão as mais diferentes possíveis, mas as origens do desrespeito às regras do trânsito, entretanto, acredita o pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), Leonardo Sá, estão na dificuldade do brasileiro de obedecer as regras de convivência social: o respeito ao outro, a solidariedade.

Isso porque, acredita, a sociedade brasileira é muito desigual e a violência no trânsito acaba expressando a dificuldade de construção de cidadania no País. Nesse sentido, o velho ditado “manda quem pode, obedece quem tem juízo” parece ser a regra geral na convivência diária dos agentes envolvidos no trânsito. “Não são levadas em consideração as regras de respeito mútuo”.

Segundo Sá, história brasileira é muito violenta. O que prevalece é a idéia do oportunismo, de que quem passa na frente é porque pode. Idéia que acaba se refletindo nas relações dentro de casa e ganhando a rua, mesmo que sejam as grandes avenidas apinhadas de veículos. Assim, há um atropelamento simbólico do outro.

Ou seja, quando o condutor de um carro não respeita o ciclista, ele sente que tem mais poder, tem o privilégio da força que o carro lhe dá. E isso acontece independentemente do poder aquisitivo ou nível de educação da pessoa. “Ao desrespeitar direitos básicos do outro, a pessoa afirma seu poder, apresentando sua superioridade que tenta impor”.

Fonte: Diário do Nordeste - CE - Carga Pesada



 
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